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viernes, 5 de junio de 2009

Convivendo com a prosperidade

A visão de que num pais rico como o Japão a vida é carae dificil pode ser deduzida da comparação objetiva de dados. Contudo, não abrangi- toda a verdade. Não dá conta do que os japoneses sentem a respeito, nem dos benefícios que tiram dessa riqueza. Pela limitação de seus recursos o Japão foi sempre pohre. os japoneses sempre estiveram acostumados li um intenso trabalho, a sobriedade foi sempre uni de seus característicos. A .sua moda, hoje aproveitam uma riqueza que ainda não tinham conhecido. Além de certo consumismo e de uma discreta... ostentação, é claramente visível uma satisfação e bem estar econômicos de toda a população. A prosperidade não impõe, entretanto, o desperdício, nem a riqueza obriga ao relaxamento e ã indolência. Os japoneses não se comportam como novos-ricos. mas como antigos, pobres que alcançaram a abundância, continuam economicamente sérios e austeros, como geralmente são nas outras coisas.





Embora a riqueza do pais seja o lato que mais salta ã vista, a força mais importante que aciona sua economia e sustenta seus mercados e o grau que a distribuição de renda alcançou no Japão.

O que explica a riqueza, a fartura, a pletora de outra forma inconcebível dos depato é que todos os japoneses tèm acesso a eles Nada é caro quando se pode pagar os preços, e quando a renda é suficientemente distribuída todos podem pagá-los. O fato mais importante da economia japonesa não e tanto a riqueza de sua produção, mas a fartura de sua distribuição: e esta que explica o escoamento daquela, em poucos países o abstrato indite de renda média per capita está mais peno tia renda concreta que cabe por cabeça a cada japonês. Indicado res das pequenas diferenças tie remuneração existentes entre diretores tie empresa e o mais modesto empregado e entre as diversas categorias profissionais tal vez façam tio Japão a nação que em todo o mundo alcançou o maior grau de democratização da riqueza O Japão não é apenas unia nação com 60 milhões de produtores: é. sobretudo, uma nação com 125 milhões cie consumidores com rendas altas muito semelhantes.

Ainda em Tokyo, li no Japan Times a notícia de que o Japão alcançara a maior renda per capita do mundo, com USS 23.022, contra USS 21.022 da Alemanha Ocidental, USS 18.163 dos Fstados Unidos e USS 13.39s) da Girã-Bretanha. Em matéria de poder aquisitivo, que define o nível de vida. estava entretanto em 3" lugar, abaixo dos listados Unidos e da Alemanha Ocidental. Em outras palavras, os estudiosos confirmam por números um falo que entra pelos olhos.

A questão é tão mais intrigante por ler uma lace paradoxal. Não é só o país que e rico: o japonês é o homem que mais ganha no mundo e o Japão é o país onde a renda se acha melhor distribuída. Morita popularizou mundialmente a verdade que 95% dos japoneses são classe média. Não há salário mínimo, mas o mínimo dos salários está por volta de 250.000 yens mensais (USS 2.000). Não vi senão dois pedintes no Japão, e não eram mendigos: um era um monge budista que fizera voto de pobreza e outro, aparentemente, um excêntrico que, sentado em uma calçada da Cinza, cantava baixinho canções nipònicas com uma cuia de esmolas à frente...

Em Osaka, pedi e fui ver um bairro pobre. Não corresponde ã noção que temos de pobreza apesar de seu evidente decaimento. Do presidente da maior empresa ao seu office-boy (se existe tal coisa) a diferença de salários é de ~ vezes apenas — 15 a 20 nos Fstados Unidos e na Europa. A renda familiar média está por volta de 500 mil yens. O padrão de vencimento de um médico é de 725 mil yens; o chefe de secção ganha 422 mil yens. Têstemunhou-me um casal de professores universitários com dois filhos adolescentes que os filhos de um casal de jardineiros competem (com vantagem contra os seus) em nível de consumo. Um jardineiro cobra por seu trabalho 10.000 yens diários. Pelos modos e pelo traje é impossível distinguir um banqueiro de seu chofer, ambos sentados à mesa de um restaurante. Parte ponderável da elite japonesa — entre ela a de grandes empresários — cultiva a vida morigerada. Alguns chegam ã ascese.

Ouvimos respostas das mais variadas ã nossa intrigante questão. Para uma professora, o socialismo não deve ser buscado em Cuba, mas no Japão.

miércoles, 11 de febrero de 2009

"Dômo", "Dôzo"

De leituras, já conheciamos a tolerància e benevolència inesgotáveis do japones para com os bebados e os pobres de espirito. Tudo lhes e relevado. Sao aceitos ajudados. Natural-mente. Sem manifestaçao dc do, sem desprezo, sem comiseração, sem impacència. Com solicitude e até ternura — parece — para com esses que viajam pelas altas planuras...

Na Ginza, noite alta, um executivo, com sen impecavel uniforme de banqueiro, dispara pela calcada emitindo urros de guerra de samurai, seguido solicitamente por mais tres "banqueiros". sua guarda tutelar. Numa boate assistimos a operação de traslado de uma fieira de bebados, carinhosamente comboiados para os elevadores.

Levamos contudo algum tempo para compreender, mais que a paciência, a atenção afeuosa com que, naquiela terra onde não se para para nada e nao se perde um minuto, nossos dois acompanhantes japoneses se detiveram por interminaveis minutos para ouvir e obedecer as sugestoes de um fotografo ambulante que se intitulava "embaixador dos estrangeiros no Japão", exibia suas credenciais, ditava instruçoes, punha-nos de prontidão e tirava postais que... nos enviaria pelo correio. Pagamos, ou antes, nossos acompanhantes pagaram. E as fotos chegaram!
No Brasil ele nao passaria, o mais das vezes, de um "vigarista importuno". No Japão, era um "pobre dos deuses". usan do sua inofensiva Ioucura para ganhar a vida honestamente.
"— Dômo!" — Com licença?* "— Dôzo." — Sim, por favor.

martes, 27 de enero de 2009

Surdina

Estranho! mas está anotado mi nosso caderno deviagem. pela primeira vez, onze dias depois de chegarmos ao Japão, ouvimos música nipônica. Durante nossa estada de trinta dias. não a ouvimos mais que seis vezes. Por que? Não conseguimos apurar. O que por toda pane chegava aos nossos ouvidos era a chamada "música de elevador", na sua quase totalidade os clássicos românticos do século XIX. XVIII ou antes. Haydn, Brahms, Beethoven, Chopin, Bach. E muitos outros. por onde andaria a musica japonesa?

O período que passamos no Japão coincidiu com iasc adiantada da enfermidade de Hirohito, quando uma multidão, em Tokyo, ia ao parque imperial, para lá, sob imensos toldos, deixar com suas assinaturas seus votos de restabelecimento ao imperador. Como deixamos os nossos. Queriam alguns que a vida continuasse como sempre. Outros que se observassem o respeito e o pesar por seu drama final, prolongado por meses. Muitos espetáculos e cerimônias foram suspensos. Festivais populares milenares do shintoísmo, os matsuri, que a cada dia estão acontecendo em algum lugar do Japão, foram cancelados. Não encontramos um, em nosso mès de viagem.

A vida continuava — com uma discrição que talvez não se acharia em outras ocasiões. Faria parte dessa surdina o silêncio da música nipônica?

Não temos explicação. Não conseguimos apurar por que só a ouvimos seis vezes em trinta dias. leria ela, como outras coisas tradicionais, se recolhido:-1 ou como tantas outras coisas, sem desaparecer, passou definitivamente a uni segundo plano cultural? Não cremos. Mas não conseguimos apurar esse silencio estranho.

martes, 20 de enero de 2009

Dois pólos teatrais

Viagens são como banquetes para a sensibilidade e a inteligência. Com a diferença de que nos banquetes antigos se podia dispor de dias para apreciar os requintes, e nas viagens de hoje freqüeutemente se tem de compactar a apreciação de séculos cm poucas horas.



Dada a ambição de nosso programa, memos de reduzir a poucas horas nosso encontro com o Nôh e o Kabuki, dois pólos clássicos do teatro japonês que guardam religiosamente suas características tradicionais. Aquele, exprimindo o máximo de economia de recursos; este, esgotando toda a exuberância de expressões. Sc ao Nôh cabe a designação de "missa japonesa", ao Kabuki se poderia chamar tie autêntica farra nipòni-ca. Ambos insuperáveis em seu estilo, com aquele sc entra em comunhão mística; neste, tivemos de enxugar gotas de um mar-de-mentira que um nadador estabanado propositadamente borrirava do palco sobre a platéia.
Na arquitetura, instalações e tudo mais, permanece o contraste. Há no Kabukiza de Tokyo um completo bazar de souve-nirs, comidas, uma quase quermesse popular. No prédio do Nòli, discretas vitrinas e balcões, como de joalheria.

O programa não nos permitia mais tie uma hora cm cada casa, quando um espetáculo completo é um seriado de vários dias. Etretanto, a compactação é possível, tal a força de impacto dos lugares e seus espetáculos.

A simples arquitetura do teatro Noh é uma lembrança in delevel Impossível alcançar-se com tanta sobriedade tanta majestade tranqüila. Há uma grandeza de palácio e uma paz de templo em seus imensos e despojados vcstíbulos e espaços de circulação. Mal cruzamos suas portas e nos envolve seu pathos, somos insensivelmente levados ao silencio, ao recolhimento, e transportados para a íntemporalidade. Não me recordo de outro interior capaz de falar tanto com sua mudez, envolvente. Lembrei-me da catedral de Colônia e da abadia de Westminster em Londres — mas com o eleito oposto de que o "além" nipònico e luminoso, e não sombrio.

Do Kabukiza se sai rindo ou chorando, dependendo da peça, porque lá tudo pode acontecer. Bastam os erros e gafes involuntários, que disparam sereias, para nós inaudíveis, mas que transformam os japoneses em enfermeiros ou bombeiros correndo em nosso pronto-socorro para restabelecer a ordem devida e repor tudo em seu respectivo lugar.